A Era do Algoritmo e a Degradação da Escuta
Quando a música deixou de ser arte para se tornar insumo de prateleira
Estamos vivendo um momento onde a música, pelo menos essa que domina os grandes canais de distribuição, deixou de ser um exercício de expressão para se tornar um subproduto industrial. O que ouvimos hoje — esse sertanejo "universitário" que se repete em loops infinitos, o funk que perdeu a vivência da rua para virar jingle de TikTok, ou o pop que soa como uma planilha de Excel — é uma poluição sonora desenfreada. Não há mais a busca pelo timbre único ou pela letra que vira cicatriz. Há apenas o cálculo do hook (o gancho), o BPM medido para gerar engajamento e a letra desenhada para não exigir nenhum esforço intelectual do ouvinte.
O Ponto de Ruptura: Onde a arte virou mercadoria
É tentador colocar a culpa nos anos 90, mas a transição foi mais lenta e insidiosa. Se nas décadas anteriores ainda havia o risco do "disco de artista" — aquele que a gravadora bancava por aposta — a partir dos anos 90 e, com força total na virada para os anos 2000, o foco mudou da qualidade da obra para a previsibilidade do consumo.
A década de 90 foi o canto do cisne da música produzida com "sobra". Foi quando a lógica da eficiência financeira começou a ser aplicada à arte. Com o advento do home studio e a subsequente democratização da tecnologia, a barreira de entrada caiu. Isso, que poderia ter sido uma revolução de liberdade, tornou-se o terreno perfeito para a padronização. Se antes você precisava de um arranjador e um produtor que soubesse o peso de cada nota, hoje você precisa apenas de um software que empilha presets.
A Pobreza Crítica: O público como reflexo da oferta
Não podemos discutir a "pobreza musical" sem falar de quem consome. Estamos diante de um público que foi treinado a ser passivo. Se a indústria serve apenas o "mais do mesmo", o público perde o paladar. É como um paladar viciado em glutamato monossódico: você retira o tempero artificial e a comida parece "sem gosto".
Chegamos a esse ponto porque a música deixou de ser um bem cultural e passou a ser música de fundo. Ninguém mais escuta música ativamente no rádio ou no streaming de forma massiva; ela é trilha para o vídeo do Reels, ela é acompanhamento para a conversa no bar. Quando a música vira "papel de parede sonoro", a criatividade é penalizada. O diferente incomoda. O novo dá trabalho. O público atual, em sua maioria, quer a segurança do que já conhece, quer a batida que ele já sabe quando vai cair.
A Política do Algoritmo e o Futuro
O futuro da música, se não houver um movimento de resistência consciente, é a atomização completa. Estamos caminhando para a música feita por IA, encomendada por algoritmos para agradar nichos microscópicos, esvaziando ainda mais a função social da canção.
O que nos resta? A resistência. Projetos como a Rádio Farofamundo não existem por acaso; eles existem justamente para ser esse oásis contra a aridez. A solução não está em esperar que a indústria mude — ela não vai, porque o modelo é lucrativo. A solução está na curadoria humana. Está no ato político de parar de ouvir o que o algoritmo empurra e ir buscar o que está sendo produzido nas margens, no underground, por quem ainda entende que música é, antes de tudo, uma forma de ser humano.
Enquanto houver pessoas dispostas a ouvir algo que não foi fabricado para vender, ainda há esperança. O "lixo" pode ser onipresente, mas ele é, por definição, descartável. O que é bom, o que tem sangue, o que tem "sujeira" e verdade, esse sobrevive ao tempo.
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