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Alexandre Lima: O Capitão que Não Deixou o Barco

A trajetória de um gigante que transformou a cultura capixaba em um hino de resistência

Alexandre Lima: O Capitão que Não Deixou o Barco
Alexandre Lima: O Capitão que Não Deixou o Barco (Foto: Reprodução)

Se a cena cultural capixaba hoje tem algum estofo, algum brilho próprio e uma identidade que não pede licença para existir, muito desse legado passa pelas mãos, pela voz e pela teimosia do Alexandre Lima.

Alex não foi apenas um músico. Ele foi um arquiteto da nossa paisagem sonora. Quando ele e seu irmão, Amaro Lima, deram vida ao Manimal, eles não estavam apenas montando uma banda. Eles estavam, na prática, fundindo as placas tectônicas da nossa cultura. Pegar o peso do rock, a ancestralidade do congo e a urgência das ruas e criar o Rockcongo não foi um exercício de marketing, foi um ato de tradução. Ele pegou o que era invisível para o resto do Brasil e transformou em hino.

Quem viveu a Rua da Lama e os circuitos culturais da Vitória dos anos 90 e 2000 sabe do que estamos falando. Alexandre era a alma daquele movimento que provou que o Espírito Santo não era um lugar de passagem, mas um destino de força. Hits como Água de Benzer, Na Puxada de Rede e Marina não foram apenas músicas que tocaram nas rádios; foram trilhas sonoras que marcaram uma geração que aprendeu, com ele, a ter orgulho de ser da Ilha.

A abnegação como religião

O que tornava o Alex diferente da média não era apenas o talento técnico. Era a sua abnegação. Ele era um agitador nato, daquele tipo que não se contentava em ser o artista no palco. Quando aceitou o desafio de ser Secretário de Cultura de Vitória em 2013, ele levou para a gestão pública a mesma energia visceral que levava para a guitarra. Ele entendia que a política cultural deveria ser o reflexo da vida real, das trocas na rua, do encontro entre o erudito e o popular.

A fatalidade que interrompeu sua trajetória de forma tão abrupta em 2013, com o aneurisma que o levou a mais de uma década de coma, foi um choque profundo para todos nós. Mas, durante todo esse tempo, a sua importância nunca diminuiu. Pelo contrário: a união da família, as campanhas incansáveis e o respeito contínuo da classe artística mostraram que o "barco do amor" — como o irmão Amaro tão bem descreveu — nunca parou de navegar.

Por que Alexandre Lima é a cara da Farofamundo?

Porque a Farofamundo, em sua essência, busca artistas que não se contentam com o óbvio. Alexandre Lima foi o artista que olhou para o congo, para o ticumbi e para o reggae e viu ali uma potência global, sem nunca precisar abrir mão da sua raiz capixaba. Ele foi a prova viva de que a criatividade, quando aliada a uma entrega genuína, rompe qualquer bolha.

Ele se foi em março de 2024, mas sua contribuição para a música e para a arte do Brasil é daquelas que não caducam. Ele nos deixou o caminho das pedras: fazer música com a verdade na ponta da língua e a cidade no coração.

Alexandre não precisou de holofotes de grandes gravadoras para se tornar um gigante. Ele conquistou o seu espaço no braço, na raça e na melodia. Que a sua trajetória sirva de farol para todos nós que, diariamente, lutamos para que a música brasileira não seja engolida pelo "sintético" que a gente combate todo santo dia.

Alex, a rádio continua sintonizada no teu legado. O barco segue navegando.

Para quem deseja relembrar e honrar a trajetória desse ícone, a discografia do Manimal segue como um documento essencial da música brasileira. A história de Alexandre Lima é um lembrete poderoso de que a cultura não é um serviço público, é o tecido que une uma sociedade e, quando perdemos um dos seus principais tecelões, o nosso dever é continuar o trabalho que ele começou.

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