A playlist da preguiça: Onde foi parar a garra de Paulo Miklos?
Paulo Miklos entrega um trabalho sonolento que ignora sua própria história
Paulo Miklos é, sem dúvida, um dos pilares da nossa música. Seja como a força motriz que ajudou a transformar os Titãs em uma instituição do rock nacional, ou na sua carreira solo — onde nos entregou pérolas de criatividade e vigor como "Orgia" e "Vou Te Encontrar" —, ele sempre foi sinônimo de intensidade. Mas, desta vez, seu novo álbum "Coisas da vida" nos entrega um Paulo Miklos que parece ter se rendido ao piloto automático.
O "Coisas da Vida", chega como o primeiro trabalho do artista totalmente dedicado a ser apenas um "intérprete". A proposta de criar uma "playlist afetiva" com clássicos de Rita Lee, Adoniran Barbosa, Criolo e Sérgio Sampaio tinha tudo para ser um exercício interessante de revisitação. No entanto, o que ouvimos é uma sucessão de faixas como "Evidências", "O Sal da Terra" e "Saudosa Maloca" que soam, na melhor das hipóteses, inócuas.
A sensação ao ouvir o disco é a de estar preso em um barzinho de fim de noite. Sabe aquele momento em que o músico no palco parece estar apenas cumprindo tabela, cantando com uma sonolência técnica que, embora correta, carece de qualquer faísca de alma? É exatamente esse o tom de "Coisas da Vida". Falta o risco, falta a verve, falta aquele Miklos visceral que a gente conhece. Quando ele se propõe a regravar hinos que já possuem uma identidade fortíssima, ele acaba entregando versões que não trazem nada de novo, transformando clássicos em uma trilha sonora de fundo que você nem se dá ao trabalho de prestar atenção. Até porque são canções primorosas e tão consagradas e executadas à exatustão, que pra soarem ainda interessantes precisam de um arranjo mais arrojado. E não é isso que vemos.
É frustrante. Miklos é um ator espetacular e um músico de talento inegável, capaz de transitar entre o rock e o existencialismo com facilidade. Mas aqui, sob a produção de Rafael Ramos e Otávio de Moraes, ele optou pelo caminho da menor resistência. O projeto, que ainda conta com um formato audiovisual de 11 clipes, parece mais preocupado com a estética e o planejamento do que com a necessidade artística real de gravar essas músicas.
Comparar este trabalho com a discografia anterior é um exercício doloroso. Onde está a urgência de "A Gente Mora no Agora"? Onde está o rock que pulsava em cada acorde da sua fase áurea? Em "Coisas da Vida", Paulo Miklos nos convida para uma festa em que ele parece estar mais cansado do que os convidados. É um disco preguiçoso, que se sobrepõe ao talento e à história de quem já provou ser um dos maiores nomes da nossa cultura, mas que, desta vez, preferiu o conforto do "mais do mesmo".
Se você busca o Miklos que desafia, que incomoda e que faz a gente parar para ouvir, esse álbum é um exercício de paciência. A vida, de fato, é feita de muitas coisas, mas a música, para ser relevante, precisa de muito mais do que apenas revisitar o que já foi feito com mais paixão no passado.
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