A Morte do Sonho Elétrico: Como o Rock in Rio Trocou a Lama e o Suor pelo Plástico dos Influenciadores

De festival de contracultura em 1985 a vitrine corporativa de hits descartáveis, o evento resume a melancólica rendição do rock à lógica fria do marketing de streaming.

A Morte do Sonho Elétrico: Como o Rock in Rio Trocou a Lama e o Suor pelo Plástico dos Influenciadores
A Morte do Sonho Elétrico: Como o Rock in Rio Trocou a Lama e o Suor pelo Plástico dos Influenciadores (Foto: Reprodução)

A decadência gradual do Rock in Rio é o retrato melancólico de como a grande indústria do entretenimento transformou um dos maiores ritos de rebeldia geracional da América Latina em um gigantesco shopping center a céu aberto, onde o consumo de fast-food e a busca por selfies superam absolutamente qualquer urgência artística.


Para entender a gravidade dessa queda vertiginosa, basta olhar para o retrovisor histórico e lembrar da edição inaugural de 1985. Naquela época, a Cidade do Rock erguida em Jacarepaguá era um manifesto real de lama, suor, tensão política e guitarras ensurdecedoras. O festival nasceu genuinamente roqueiro, unindo multidões famintas por contracultura e liberdade contra os estertores finais de um país que redescobria a democracia ao som visceral de AC/DC, Queen, Iron Maiden, Ozzy Osbourne e Scorpions. Era um acontecimento sobre a urgência da música e a catarse coletiva, onde a poeira grudada na pele significava que você estava testemunhando a história acontecer diante dos seus olhos, sem filtros ou grades corporativas intransponíveis.


O contraste com o evento de hoje em dia é gritante e doloroso para quem respeita a história do rock. O festival perdeu totalmente a sua alma ao adotar uma curadoria insossa e previsível de "Sessão da Tarde", escancarando suas portas para uma vitrine pop pasteurizada, repetições exaustivas de atrações e escalações desconexas que parecem ignorar o próprio nome cravado no letreiro. Ver palcos principais dominados por fenômeros descartáveis de K-pop, artistas de TikTok e pela presença onipresente e repetitiva de Ivete Sangalo — que acumula tantas edições no currículo que já virou quase um móvel inventariado da casa — escancara a capitulação total da curadoria. O imponente Palco Mundo transformou-se em um caldeirão morno de hits instantâneos de streaming, onde o público se espreme mais para garantir vídeos verticais para as redes sociais do que para celebrar a energia crua e transformadora do gênero.


Essa descaracterização se aprofunda ainda mais quando analisamos a curadoria de atrações nacionais e internacionais das últimas edições, que frequentemente relegam bandas de rock autênticas a horários marginais ou palcos secundários menores, enquanto o horário nobre é entregue a produtos fonográficos totalmente desconectados da contracultura. A inclusão mecânica de artistas pop ultra-comerciais e DJs genéricos de EDM só reforça que o critério de seleção deixou de ser musical e passou a ser puramente estatístico, focado em métricas de engajamento digital e patrocínios cruzados.


Para piorar o cenário, a experiência do público pagante despencou ladeira abaixo com a mercantilização extrema do espaço físico. Com ingressos a preços elitizados que excluem a verdadeira juventude operária e roqueira, o evento promoveu a vergonhosa "camarotização" generalizada do gramado, loteando as melhores áreas para marqueteiros, influenciadores digitais e celebridades que assistem aos shows de costas para o palco. Dezenas de ativações de marcas gigantescas, rodas-gigantes corporativas e praças de alimentação gourmetizadas engoliram o espaço físico e simbólico da arte. O Rock in Rio deixou de ser um acontecimento de contracultura para se transformar em uma feira de negócios burocrática, onde o bom gosto passou longe e o "rock" sobrevive apenas como um termo nostálgico, oco e cínico estampado em um logotipo que já esqueceu quem ele realmente foi.

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