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Blitz: A antropofagia no picadeiro de NuDusOutros

A Blitz gravou um disco de "clássicos da MPB"

Blitz: A antropofagia no picadeiro de NuDusOutros
Blitz: A antropofagia no picadeiro de NuDusOutros (Foto: Reprodução)

Dizer que a Blitz gravou um disco de "clássicos da MPB" é reduzir drasticamente o que acontece em NuDusOutros. O que Evandro Mesquita e seu coletivo fizeram aqui não é um exercício de nostálgicos buscando o conforto do passado; é um ato de antropofagia musical. Eles pegaram a estrutura sagrada de canções de Belchior, Gilberto Gil, Zé Keti, Roberto e Erasmo Carlos e as filtraram pela lente da Blitz: o teatro, o groove sincopado e uma irreverência que só quem tem 40 anos de estrada consegue sustentar sem parecer forçado.

O título NuDusOutros já entrega o jogo: é um desnudamento. Eles tiram a roupagem original, muitas vezes carregada pela solenidade do cânone, e vestem essas músicas com a própria pele. É fascinante ver como uma faixa como Sujeito de Sorte (Belchior) ou Sentado à Beira do Caminho (Roberto e Erasmo) ganha uma nova vida quando passa pelo crivo do grupo. Não é sobre tentar superar o original — algo impossível e desnecessário — mas sobre mostrar como essas músicas são "organismos vivos" que sobrevivem a qualquer tipo de rearranjo.

A participação de nomes como o pessoal do Funk Como Le Gusta e a produção caprichada só reforçam que a Blitz não está brincando de banda. Eles entendem que, para dialogar com a MPB, é preciso ter estofo. A faixa bônus, uma versão jazzística de Você Não Soube Me Amar, é o fechamento perfeito para esse círculo: eles se autorreferenciam, provando que o maior hit da banda também é um clássico que merece ser desconstruído e analisado sob uma nova luz.

Para a Farofamundo, esse álbum é uma aula de como a música popular brasileira pode — e deve — ser antropofagicamente digerida com "unhas e dentes". A Blitz não está olhando para trás; eles estão trazendo o passado para dentro da fogueira atual, provando que, se a música é boa, ela não pertence a um gênero ou a um tempo, ela pertence a quem tem a coragem de tocá-la com personalidade.

Sobre o álbum:

NuDusOutros (2026) marca um capítulo ousado na discografia da Blitz. Sob a liderança de Evandro Mesquita, o álbum é um tributo à música brasileira que moldou a identidade do grupo, reunindo releituras de ícones da nossa canção ao lado de novas interpretações para sucessos autorais. Com participações de músicos como George Israel, Ximbinha e o grupo Funk Como Le Gusta, o disco reafirma a versatilidade da banda, que transita entre o rock, o samba e o funk com a mesma leveza tropical de sempre. É uma obra que celebra a memória afetiva sem perder o frescor do presente, consolidando a Blitz como um coletivo que, quatro décadas depois, ainda dita o seu próprio ritmo.

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