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A Engenheira do Nonsense

Como Ana Frango Elétrico desmancha a MPB para montar seu próprio labirinto sonoro

A Engenheira do Nonsense
A Engenheira do Nonsense (Foto: Reprodução)

O que define a música de Ana Frango Elétrico não é o gênero, mas a textura do improvável. Ela habita um lugar onde o pop setentista — aquele da orquestração ensolarada e do piano saltitante — encontra um desvio de comportamento. Sua voz é o maior sintoma disso: um tom que flerta com uma certa ingenuidade juvenil, quase desprotegida, mas que, no instante seguinte, projeta uma consciência sarcástica sobre a própria existência. É uma voz que não quer ser "perfeita" no sentido técnico, ela quer ser real no sentido performático.

Ao ouvir "Insista em mim", você entende que Ana não compõe canções de amor tradicionais; ela compõe cenas. Há um senso cinematográfico no modo como ela organiza os instrumentos. O seu repertório é um recorte do cotidiano que ela mesma recorta e cola, como uma artista visual de colagens analógicas. Ela se apropria de referências que poderiam soar como "cópia" nas mãos de outros, mas as distorce com uma crueza eletrônica e orgânica que é inteiramente dela.

A escolha de gravar "Dr. Sabe tudo", de Rubinho Jacobina, diz muito sobre o seu método: ela não busca a música pelo prestígio, mas pela identificação com a estranheza. Ela pega algo que já tinha uma verve inteligente e imprime uma camada de estranhamento elétrico, tornando-a algo novo, quase como se o original fosse apenas um esboço. E quando a gente chega na parceria com Arnaldo Antunes, vê o círculo se fechar: Arnaldo é o mestre da palavra concreta, e Ana é a mestra do som que parece concreto, mas que derrete na boca. É um encontro de quem brinca com a lógica da língua.

O universo da Ana é um convite para habitar o nonsense sem medo. Ela não quer te convencer de nada; ela quer apenas te convidar para o seu laboratório de experiências afetivas, onde o erro é parte da orquestração e a juventude não é uma fase, mas uma estratégia de subversão contra a sisudez da MPB tradicional.

Sobre a artista:

Ana Frango Elétrico (Ana Faria Faingart) consolidou-se como um dos nomes mais originais da música brasileira ao fundir o pop experimental com as raízes da canção popular. Sua discografia — iniciada com Mormaço Queima (2018), seguida pelo aclamado Little Electric Chicken Heart (2019) e o sofisticado Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua (2023) — é um registro de uma artista que trata a composição como artes visuais. Com uma identidade sonora que equilibra o lo-fi e o arranjo de orquestra, Ana tornou-se a referência máxima de uma geração que não busca mais a validade dos grandes selos, mas a ressonância de uma verdade autoral que se auto-reconfigura a cada álbum.

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